quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A casa é velha
Ela conversa com cada um de nós
As madeiras rangem
Cupins cochicham
Portas batem
Ela respira devagar
A noite aspira
O dia expira
Não há luz na casa
É casa vazia
Casa catedral
Com altar, nicho
Catacumba, vitral
Nos corredores, pó e escuridão
Muitas portas
Muitas escolhas
Madeira e mofo
Perfume de passado sem luz
Os retratos observam os visitantes
Sérios, austeros
Não vou ser retrato
Eles não envelhecem
Não morrem, não vivem

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

"Men are haunted by the vastness of eternity. And so ask ourselves. Will our actions echo across the centuries? Will strangers hear our names long after we're gone. And wonder who we were, how bravely we fought, how fiercely we loved?" Troy-Wolfgang Petersen (2006)
No principio, só um Ventoverbo
Uma vontade condensada
Toma forma e conteúdo
Como beijo, a palavra estala no tímpano
Tem cor, cheiro, sabor
A palavra é maciça
Torna-se companheira, amiga, amante
Íntima e cruelmente verdadeira
Acaricia o ouvido, morde o lábio
Entrelaça-se na língua
Deitada sobre o lençol branco
A silhueta nua não possui segredos
E irremediavelmente apaixonados
Nos entregamos aos caprichos da palavra
O Sol se põe no lago
Mas nem a beleza abranda o pesar
Procurei em vão, milhares de rostos
Sorrisos, olhares
Seios, bocas
Nada, nada
A Lua brota no horizonte
Toma o céu de assalto
Mas a noite, terrivelmente escura
Inquietação
Hoje não quero canção ou melodia
Apenas as vozes da noite
O ninar do Silêncio

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Com a caneta em guarda
Fico tamborilando a impaciência
Sobre a mesa
O gato ronrona, espreguiça
Provoca enroscando-se nas pernas
A poesia não nasce
Não cresce, fica a se revolver no ventre
Será que já é tempo?
O que é o tempo?
O tic-Tac do relógio?
Não, o tempo é como poesia
Do caldo metafisico cristalizado
Ela nasce
De cada gota de areia
Cada grão de chuva
Vontade adormecida
Vento estático
Verso errático
Inércia na tempestade
A luz espessa das calçadas
Embala frios conceitos etílicos
Agarrados a sobriedade das filosofias
Passantes são como fogo-fátuo
Momentos do acaso
Acadêmicas ilusões sisudas
Kant, Descartes, Nietzsche
Friamente já os li
Prefiro o calor primitivo da ancestralidade
Xângo, Oxalá
Ogum, Oxum
Embalam-me no ponto cantado
No ponto firmado
No ritmo do atabaque
Papéis amarelos não tem vida
E as pretenças equações do acaso
Deixo aos matemáticos

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

A tempestade desconjunta o espaço
Sacode vidros, atravessa frestas
Carrega pó, água, aço
O quarto é ventre em gestação
Sobre a cama morno silêncio
As linhas de rósea pele madura
São curvilíneas imperfeitas
Que exalam perfume de menina
Na manhã quente a chuva cai fina
Mas no final do arco-íris não há pote de ouro
Apenas uma Gota de Orvalho