quarta-feira, 19 de março de 2008

Revolvendo a bruma da lembrança
Trago de volta madrugada de afagos
Sopro brasas, folho memórias
E esbarro no teu perfume delicado
Chuva fria, beija-me o corpo!
Envolve-me em âncias e frêmitos!
Desejo teu gosto, teu cheiro,
O sabor dos teus seios
Desejo com a serpente da minha boca
Sugar o mel da tua boca
E das caricias dos teus lábios
Do contorno da tua língua
Arrancar o suspiro mais profundo
Com lascivo desespero de um desejo infecundo.
Meus olhares sempre silenciosos
percorriam tua figura
em busca de uma incoerência altiva
um espasmo de incerteza,
algo que te fizesse fraca.
Te observava enquanto cochilava na banheira,
arrumava o cabelo ou semi-nua lia sentada na varanda.
Certa vez te olhava enquanto tomava café
mexia a colher mirando o nada.
Derrepente esboçou um sorriso com o canto da boca.
Olhei para a direita e percebi,
eras tu que me olhava através do espelho.

Foi Sangrenta - Pablo Neruda

Foi sangrenta toda terra do homem.
Tempo, edificações, rotas, chuva,
apagam as constelações do crime,
o certo é que um planeta tão pequeno
foi mil vezes coberto pelo sangue,
guerra ou vingança, armadilha ou batalha,
caíram homens, foram devorados,
depois o esquecimento foi limpando
cada metro quadrado: alguma vez
um monumento mentiroso,
às vezes uma cláusula de bronze,
depois conversações, nascimentos,
municipalidades, e o esquecimento.
Que arte temos para o extermínio
e que ciência para extirpar lembranças!
Está florido o que foi sangrento.
Preparar-se, rapazes,
para matar, morrer de novo,
e cobrir com flores o sangue.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Como pássaro, vôo contra o vento
Estou pleno de desejos, alegrias
Fúrias, medos
As perguntas não faço
Deixo que se construam
Não aparo a chuva
Observo as gotas caírem
Não a beijo
Que nossos lábios se fundam à vontade das águas
Que nossos corpos se toquem ao estalar das chamas
Bebo todo o café
Como toda a carne
Embriago-me a cada verso
E no seu sono
Contemplo a imagem do silêncio
Não vejo nada
Meus olhos?
Gastaram-se sobre versos ásperos e palavras duras
Secos, pelo pó das estantes
Paladar, olfato
Tomados pelo mofo da sala
Me curvo sobre as páginas
Perdido no contorno de cada letra
Labirinto
Cela sem grade
Um eterno buscar e fugir
A clausura me sufoca!
Quero conversar com pessoas
Abraçar amigos
Ver sorrisos sob olhos verdes
Achar alguém para dividir o gozo
Tropeço até a porta
O ar gelado da noite é um tapa na cara
E o vento um perfume
Ele morreu, morreu de amor antigo. Andava pela rua quando foi atingido. O primeiro lhe perfurou o tímpano. O segundo, em cheio no coração. Rodopiou sobre as pernas, emborcou, estatelando-se no chão.
Alguém gritou: - Bala Perdida!
Antes fosse, não teria doido tanto. Mais certo que bala, palavra. Em rajadas, verso. Palavra perdida, que sem o alvo não encontrou saída. E mortal verso, sem lugar definido, tornou-se um solitário verso.
Verso de amor perdido.
Através da vidraça
O tempo anda em câmera lenta
Os galhos sacolejam apaixonados
Vez ou outra um carro passa
Alguém cruza apressado
Mácula no tempo
Leve irritação
Mas tudo volta ao ritmo
No céu os pássaros não tem pressa
E até o vira-lata esquece de existir

quinta-feira, 6 de março de 2008

A chuva cai, o vento corta pelo lado
Desabafo das nuvens
Suspiro gelado
O céu, um sombrio alaranjado perfeito
Salpicado por véus de algodão
Escuta!
O farfalhar das árvores
O gotejar das folhas
Cada passo estala no tímpano
O asfalto, um rio negro estático
Fecho os olhos
Pé ante pé
Recordo tudo que foi deixado
O corpo molhado, derrotado
Carrega a Saudade
Palavra limpa em alma suja

segunda-feira, 3 de março de 2008

Sarau noturno
Gatos no telhado
Os cães protestam
O vento consente
Vozes e motores à distância
No quarto
Capela íntima do corpo
Só o relógio esforça-se em criar o tempo
Dar sentido ao espaço
Sentado na cama
Ignoro o tic-tac
Tricoto cada fio de lembrança
Nesta faina nem teu cheiro me escapa
E da tua boca
Cada sorriso é uma saudade